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Havia há muitos anos, numa pequena cidade do interior, um rapaz de nome José. Seu sonho, pois havia um sonho que acalentava durante anos, era o de poder voltar a ver as belezas da vida, da natureza e as pessoas, das quais guardava remotas lembranças. O pobre José havia ficado cego em um acidente na serraria em que trabalhava. E como não tinha família ele ficou desamparado e passou a viajar. Em suas andanças de cidade em cidade, conheceu uma jovem em quem esbarrara. A jovem, a princípio, ficara aborrecida, pois com o esbarrão, fora jogada a uma parede e magoara o seu braço. Porém, ao notar que o rapaz era cego, desculpou-se por sua ira e ofereceu-se para levá-lo a seu destino. José, porém, disse que não tinha para onde ir. E a jovem convidou-o para ir à sua casa. Embora com certa relutância o rapaz aceitou e lá foram os dois. Chegando na casa da jovem, que disse chamar-se Maria, o rapaz foi apresentado aos pais dela, que sabendo da história dele, convidou José a morar com eles. Desse dia em diante, José passou a conviver com aquela família, em um pequeno quarto que havia nos fundos da casa. O pai da jovem, de nome Matheus, tinha uma pequena oficina artesanal, e José, com sua habilidade passou a ajudar na confecção de peças. Todos os dias, após o trabalho, os dois jovens iam para perto de um velho tronco de árvore e dali a moça descrevia todos os movimentos das nuvens que passavam pelos céus, como também falava sobre a lua e as estrelas. - Gostaria de poder dizer-lhe hoje, a beleza que está o céu. Há uma estrela que brilha com tanta intensidade que parece que sorri para nós - disse Maria.
O rapaz com certa tristeza, mas denotando uma leve esperança, respondeu: - Talvez ela sorria para mim, como uma esperança de que eu possa tornar a ver. Ou talvez, por ser tão bela, outros a possam ver e eu não. A moça compreendeu a mágoa de José e não quis insistir na beleza da estrela. Mas, depois daquela noite, passou a notar e sempre a presença do ponto luminoso no céu e que brilhava com mais intensidade que as outras estrelas. Maria chegava a rezar:
- Bela estrela que brilha nos céus. Por quê não concedes esta felicidade e alegria para o meu querido José. Restitua-lhe a visão, para que ele possa ver-te e admirar-te como eu. Esse era também o sonho secreto de José, que intimamente orava: - Ó estrela que tanto brilhas. Por que não posso ver-te como outros o fazem? Por que não posso ter a alegria de poder ver a mulher que amo e com quem quero me casar? Gostaria de poder tornar a ver para trabalhar mais e melhor, e poder oferecer a Maria um pouco da minha vida, todo o meu amor. Ó estrela ! Aproxima-se o Natal e com ele cresce mais ainda a minha esperança de voltar a ver todo o esplendor da natureza, as cores e a beleza da vida em meu redor.
Aproximava-se o Natal e havia em todas as casas a movimentação normal da época, com todos se mobilizando para a arrumação e ornamentação para a maior beleza da festa máxima de Cristandade. A alegria irradiava-se em todos os cantos, e José mantinha acesa a Esperança de poder ver a moça de voz tão linda que lhe falava com tanto carinho e poesia.
- Nunca, em tempo algum, eu tive um presente de Papai Noel. Esse bom velhinho que todos dizem existir, para mim não passa de um mito, de uma história inventada para enganar as crianças e os mais tolos. Pois, se ele existisse mesmo, o único presente que eu pediria com fervor, seria esse: minha visão. Os preparativos se tornavam mais intensos, com todos se esforçando para tornar aquela Noite de Natal bem alegre, e com isso diminuir um pouco a tristeza que havia nos olhos de Maria, que existia no coração de José. E o dia chegou. Dia 24 de dezembro de 1956. A pequena Árvore de Natal estava iluminada com pequeninas velas, a mesa repleta de pratos os mais variados, salgados e doces, feitos pela mãe de Maria, Esther. E seu pai havia encomendado várias garrafas de um vinho especial para que pudessem beber a valer. Sem conseqüências no dia seguinte, claro. Todos riam, conversavam, cantavam, naquele princípio de festa. A casa estava cheia de parentes, irmãos, tios, primos e alguns convidados. Apenas José, de braço dado com Maria, permanecia calado. Ria apenas por fora, pois seu interior estava tristonho. Bem verdade era aquela - pensou - Não existe Papai Noel. E José foi levado por Maria para se reunirem à mesa, onde Matheus dizia uma prece: - ... e que quando o próximo Natal chegar, possamos estar alegres e felizes, tanto como estamos neste ano. Agradecemos a Deus por esta mesa farta e pela presença de todos. Que a alegria do Natal seja uma só para os que aqui estão. Nisso, ouviu-se um grito. Todos levantaram suas cabeças, olhando numa só direção. José largara a mão de Maria que o segurava e correu para a porta da frente. Atônitos, ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. Todos ficaram espantados, com a atitude de José, que chegou na varanda e ficou olhando para o alto. E ainda gritando, José olhava para o céu com os braços abertos. E gritava: - Eu ouvi ! Eu ouvi os sinos do seu trenó ! Muitos falavam e eu não acreditava que ele existia, mas, eu ouvi. Os sinos, sua risada... Aquela risada que ficará gravada em minha mente. E vi a sua imagem... Sim, eu o vi. Quando passava frente à lua, eu o vi... Vi Papai Noel...! Ia em direção àquela estrela brilhante. A nossa estrela. A Estrela de Natal.
- Obrigado, meu bom velhinho. Agora eu sei que você realmente existe ! Abraçando-se à Maria, José disse-lhe, com os olhos cheios de lágrimas: - Obrigado, meu amor ! Sua Fé foi grande o suficiente para suprir a minha descrença. E graças a ela, é que posso ver e admirar você ! E beijou-a sob os aplausos de todos os presentes. Aquela, foi a noite do mais Feliz Natal, naquela cidadezinha.
José Maciel Para enviar esta mensagem, clique na imagem
Se desejar receber atualizações: clique aqui Essa história foi escrita e lida no dia 24-12-1965, na Rádio Solimões, de Nova Iguaçu, no programa "Peça e Ouça", de Jarbas Gonçalves. |