Há na minha cidadezinha, uma moça solteirona.
Seu nome Mariazinha da Fé !
Êta moça linda, de morrer... Tem um cabelo comprido, bonito, bem tratado, 
que brilha até na luz da lua. E que corpo, que andar...
Quando ela vem no centro da cidade, todo mundo pára pra ver.
Até as outras mulheres do lugar.
Fica todo mundo olhando quando ela passa, toda faceira, sorrindo no cumprimento,
com uma voz, que "vô te contá".
 
Ela vem e faz as compra na quitanda do Zeferino, que coloca tudo num saco, 
que todo mundo mundo se oferece pra levar.
Ela agradece, mas pega o saco, joga nas costas e lá vai ela carregando 
aquele fardo, como se fosse uma coisa muito pequena.
Só tem uma coisa que eu num entendo:
 Como é que uma moça daquela, tão bonita, ainda não se casou?
 
Eu moro aqui faz pouco tempo, ainda não conheço todo mundo.
Por isso é que ainda não perguntei pra ninguém.
Mas, que tô curioso, ah, isso estou...!
Mas, como amanhã é dia de cortar o cabelo, e salão de barbeiro é lugar que a
gente sabe das notícias, vou tentar incorporar mais um pouco o sotaque do 
lugar e como quem num qué nada, eu vô entrá no assunto. 

         

- Sabe não, rapaz ? me pergunta seu João, o barbeiro.
- Claro que num sei, seu João. Faz só umas semana que tô morando aqui que inda
num conheço todo mundo. Mas, me diz, seu João, por quê é que a Mariazinha
num tá ainda casada?
- Pra te falar a verdade, nem todo mundo sabe direito. Essa menina chegou 
por aqui, faz mais ou meno uns 6 mes, e foi morar lá numa casinha,
que fica perto do arroio da Munheca.
- Nome engraçado, seu João, arroio da munheca...
-Pois é, ele tem esse nome, que lá tem um lugar chamado "fundão", onde
a turma vai se banhar, e o chão é de tabatinga.
Quando tá moiado  escorrega qui só vendo. 
E quando nós sai correndo pra se jogar no fundão, tem gente que escorrega 
e cai de traseiro no chão, se apoiando na munheca.
Fica tudo com a munheca doendo. Por isso o nome...
- Ah, entendi, mas, me conta da moça...
- Só sabemos, que de vez em quando um dos nossos
se adianta e cerca a Mariazinha aqui na cidade e cunversam, cunversam...
- Mas, fica só nisso, seu João?
- Bem, a gente vê os rapaz passeando com ela de mãos dada, e  eles são
convidado pra ir na casa dela. Só que a gente num sabe o que acontece lá,
nem nenhum deles diz pra ninguém... Eles vão, despois leva uma semana, 
mais ou menos, sem aparecer, e quando aparece, tá todo mundo de cara 
murcha, num falam nada. Só que acabou...
- É, é bem estranha essa história...
Tão estranha que resolvi apurar melhor. E pra isso só tinha uma maneira.
Dar um jeito de me aproximar de Mariazinha.
Afinal, parecia que ela tava sem ninguém, e eu também...
Foi o que fiz.
         
Um dia Mariazinha veio na cidade. Eu, como quem num quer nada, 
também fui na quitanda do seu Zeferino.
Ela já havia entregue a lista e enquanto Zeferino separava o pedido,
ela se punha a olhar o que havia de novidade.
Fui me chegando, fazendo de conta que também examinava as 
mercadorias e, "sem querer", esbarrei nela e deixei cair um pacote 
de farinha, que rasgou e se espalhou pelo chão.
- Desculpe, moça, o meu sem-jeito.
Ela olhava para mim, com um sorriso, e quando eu tentei juntar a 
farinha, meio agachado, ela soltou uma gargalhada.
- Liga não - disse ela. Seu Zeferino depois varre.
Levantei-me, também sorrindo, e me apresentei.
- Olá, meu nome é ...
- Tadeu...! disse ela, para minha surpresa.
- Ué, você já sabia ?
- Aqui é cidade pequena, e quando você veio morar aqui, no dia seguinte 
eu já sabia como você se chamava.
E começamos a conversar. Logo depois seu Zeferino veio com a lista 
e o saco cheio.
 
- Pronto, dona Mariazinha... Tá tudo ai. Já anotei no caderno e o total tá na lista.
- Obrigada, seu Zé...
- Quer ajuda? - perguntei...
- Só até a esquina já me adianta, que eu ainda tenho que comprar outra coisa.  
E saímos dali, eu quase que arrastando o saco, meio pesadão. 
Paramos na porta da farmácia, ela foi lá, comprou alguma coisa e voltou,
 já pegando na boca do saco e dizendo:
- Obrigado, daqui eu levo... Olha, que tal um jantar amanhã, na minha casa?
- A que horas ? Traje a rigor? - perguntei sorrindo.
- Não, venha à vontade. Lá pelas 8 da noite.
- Combinado...
Só depois que ela já estava um pouco distante é que me dei conta que ela 
levava o saco com uma facilidade tremenda.
Passei o resto do dia imaginando como seria o jantar. Nem dormi direito.
 
         
 
No dia seguinte, a ansiedade aumentava. Não conseguia entender o 
por quê que ninguém firmava namoro com Mariazinha.
Era tão cheirosa, e tinha uma pele... Nossa !
 
O dia custou a passar... Chegando a hora de ir, me barbeei, dei uma 
escanhoada para não ferir com meus pelos aquele rosto macio. 
Sim, porque eu tinha quase certeza de que alguma coisa ia rolar.
Tomei um banho, coloquei uma água de cheiro, pra homem e lá fui eu... 
Saí de casa com bastante antecedência e fui andando devagar, 
que era pra não suar no caminho.

        

- Oi, de casa... - gritei do portão.
Ela apareceu na porta e falou:
- Entra...! Pode ir chegando... !
Meio devagar fui entrando, cheguei na varanda e limpei os pés da poeira da estrada.
Pela porta aberta eu vi que a casinha era um brinco de limpa.
- Boa noite, Mariazinha !
- Boa noite, Tadeu... pode ir se acomodando, que estou terminando uma 
coisinha aqui na cozinha.
 
E lá foi ela faceira com uma colher de pau na mão.
Usava um avental na frente de um vestido todo florido, meio curto, deixando
aparecer as curvas detrás do joelho. Acomodei-me num pequeno banco de
madeira, com encosto e almofadas.
Apreciei a decoração. As peças que compunham a sala formavam um 
conjunto bem harmonioso, leve, feminino.
 
Ai, ela trouxe as travessas para a mesa já posta e mandou que eu me
lavasse no banheiro, para tirar a poeira da estrada.
 
Voltei e sentei-me na outra cadeira vazia. Ela já estava servindo o arroz
com legumes, uma saladinha de folhas e uma senhora carne assada.
 
Conversamos amenidades, contamos algumas historinhas, sorrimos,
tomamos um vinho tinto muito gostoso, mas que pegava que só vendo.
Eu já começava a suar quando ela sugeriu que fossemos para a varanda.
Lá fora corria uma brisa fresca e estava bem mais agradável.
Uma cadeira dupla de balanço, foi onde nos sentamos.
Ai, peguei em sua mão e senti que era um pouco grande; mas, quem
liga pra isso numa hora dessa ?
Começamos a nos abraçar e beijar. Acariciei o seu corpo, os seios volumosos,
suas coxas, quando ela segurou minha mão e não me deixou avançar mais.
- Calma - disse ela - se for rolar alguma coisa entre nós, é melhor 
que seja no quarto. Você não acha ?
Como todo bom namorador, aceitei sua vontade, dei-lhe outro beijo, 
e sem que ela esperasse, avancei o sinal...!

         

Cinco minutos depois de uma corrida, eu já estava a léguas do lugar...
Parei, arfando, suado, me encostei numa árvore e respirei fundo...
E, com a mente mais calma, foi que eu entendi porquê é que
Mariazinha, moça bonita, prendada, boa cozinheira,
e que carregava um saco pesado sem demonstrar nenhum 
esforço, não ficava com nenhum namorado.
 
Mariazinha,  era, simplesmente, um travesti.
Que gostava de dar e receber...
 
E se eu não tivesse me mandado logo que descobri,
teria acontecido comigo o "mesmo" que deve ter acontecido 
com os outros, se é que me entendem...
 
Sai fora, sô !!! 

         

José Maciel
13-04-2002
 
 
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