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Da minha infância, o que me é permitido lembrar, nunca me esqueço dos momentos em que olhava para o céu e conseguia ver todas as estrelas...

Morando numa cidadezinha de um município do Rio de Janeiro, num bairro onde a luz elétrica ainda era uma raridade, lá pelos idos de 1950, nosso lar era iluminado pelos lampiões cujo pavio era alimentado por querosene.

Sua luz era muito fraquinha, mas tão fraca, que quando queríamos conversar olhando uns para os outros, sem forçar a vista, íamos para o quintal,onde os raios de luz da lua incidiam com mais força sobre nós.
Na época havia menos poluição, o céu era tão nítido que a impressão que dava era a de que se quiséssemos poderíamos tocá-lo.


Sentávamos na calçada que havia em volta da casa e ali ficávamos conversando sobre tudo o que se passara durante o dia.
Minha mãe, muito sonhadora, falava sobre a forma como arrumara a casa, com seu jeito feminino, e de seus sonhos em ter um lar com mais conforto, com cortinas nas janelas, luz elétrica e a casa forrada, pois nossa casa era grande e confortável, mas olhando para cima, viam-se as armações de madeira e as telhas.
Nós escutávamos ( eu e minha irmã)...

E eu olhava as estrelas cintilantes
imaginando como seria bom que minha mãe alcançasse o seu sonho.
Eu tinha dez anos, minha irmã, cinco...
Meu pai, só dizia: "Se Deus quiser... se Deus quiser !"
E minha mãe respondia : "Ele vai querer...!"
Os meses começaram a passar...  e meu pai conseguiu fazer mais um quarto para mim, e um banheiro com laje; com sacrifício instalou luz elétrica, digo sacrifício porque nossa rua não tinha postes e meu pai, se cotizando com alguns poucos vizinhos compraram postes de madeira, pagaram uma parte dos fios e a companhia elétrica colocou luz em nossas casas. Minha mãe pediu e meu pai comprou um rádio mais moderninho, pois o que tínhamos, por falta de uso, havia se danificado.
Algum tempo depois, não me lembro quanto, ele comprou um aparelho de televisão GE portátil na Mesbla. Era pequeno, acho que 12 polegadas, mas passou a ser como se fosse um cinema...
Minha mãe cobrou e ele comprou as cortinas que ela tanto sonhara...
E feliz, inventava pratos saborosos com os quais meu pai, um glutão de marca, se deliciava.
Mas, nunca deixamos de, apagando as luzes após o jantar, irmos sentar na calçada e, ali olhando as estrelas, fazer permanecer em nossos corações o espírito de família.

Por isso que, hoje, mais de 50 anos depois, eu ainda gosto de, indo na casa de minha filha, apanhar uma cadeira dessas de plástico, colocar na calçada e recostado ficar olhando para o céu.
Mais precisamente ficar olhando àquelas estrelas amigas, que nunca nos
faltaram com sua presença.


Faça isso, você também... Tire um momento de sua vida...
À noite, de preferência num ponto escuro, sente-se, recoste-se, ou mesmo deitado, fixe seu olhar para o alto e ali, no meio daqueles pontos luminosos você encontrará um, ao qual você se apegará e fará dele um ponto de apoio para seus pedidos.

A partir de agora, viva, intensamente, feliz,  com tranqüilidade, 
em paz, com amor,

    olhando as estrelas.   


 
JOSÉ MACIEL

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