Presentão

Um dia, tempos atrás, era véspera de Natal.

E eu estava só...

Andava pelas ruas, sem saber o que fazer.

Pra lá e pra cá, iam e vinham pessoas carregadas de embrulhos, sacolas, pacotes, garrafões de vinho, fazendo as compras de última hora.

Algumas ainda corriam, sem saber que presentes comprar para parentes e, ou amigos.

E eu os observava, curioso por saber o pensamento de cada um.

Mas, como ? E para quê ? O que me deveria interessar naquele momento seria ir ao encontro de Papai Noel e fazer o meu pedido.

Corri... o tempo passava.

Cheguei a uma loja onde crianças faziam fila para falar com o bondoso Velhinho, que só é lembrado um pouco antes e menos que um pouco depois do Natal.

Ou não é verdade ?

Bem, deixemos isso para lá.

A verdade é que eu estava na fila e nessa altura sendo notado e comentado por outras pessoas, pais de criancinhas que estavam à minha frente.

E eu pouco ligava; afinal tinha que aproveitar a oportunidade, pois precisava, realmente, falar e muito com o Papai Noel.

Os meninos olhavam para mim e riam. Eu sorria também para eles, mas,confesso, já estava ficando um tanto ou quanto encabulado.

Ainda bem que eu já estava pertinho da cadeira do Papai Noel.

E pensava o tempo todo no que pedir, e como pedir.

E cheguei junto ao velho de barba branca e roupa vermelha, que estava sempre sorrindo.

- Hô, hô, hô... !  Pode chegar, meu bom homem...  Onde está o menino?

- Não é prá menino, não - disse eu...

- Então é pra menina ? Hô, hô, hô ...!

- Também não é pra menina, não ! Eu nem sou casado - disse-lhe eu,com um riso sem graça. O pior é que, enquanto eu falava baixo, Papai Noel insistia em falar alto e todos ao lado ouviam...

- Ora, ora, então o que deseja ?

- Bem, eu queria fazer um pedido para mim !

- Acho que não entendi... Não vai querer também sentar-se em meu colo ? perguntou, sorrindo.

- Não, não precisa - nessa altura eu já suava em bicas e todos me olhavam, curiosos - Fico de pé mesmo.

- Bem - disse ele - se deseja fazer um pedido, que o faça. Porém, meu bom rapaz, digo que acho estranho...

- Bem, acontece que... - e comecei a sussurrar ao pé do ouvido dele.

Alguns anos se passaram...

Amanhã é véspera de Natal e eu tenho que me deitar agora.

Estava recordando esse episódio que se passou comigo, já faz um bom tempo, e amanhã tenho que me levantar bem cedo.

Levantar cedo sim, para passar o dia correndo de loja em loja, de shopping em shopping, à procura de Papai Noel.

Bem sei que irei encontrar vários Papais Noel, com já vem ocorrendo há alguns anos de procura, porém, eu apenas desejo me avistar com "aquele". Aquele a quem pedi uma esposa e fui atendido...

Porque hoje, sou casado, pai de seis filhos, em vésperas de gêmeos, com um sogro aposentado e uma sogra morando comigo.

Além de um cunhado que detesta trabalhar.

E se desejo, e muito, me avistar com aquele Papai Noel, é apenas para lhe dizer:

- Puxa, meu Velho ! Eu pedi uma Família...

- Mas, não precisava exagerar !!!

     

autor:  José Maciel*

* Esta historinha foi publicada no Suplemento de Natal do jornal Correio da Lavoura - Nova Iguaçu - RJ, em 20 de dezembro de 1964.

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