Ao receber uma página em que havia um questionário sobre o uso indiscriminado da Internet, classificando-a como um vício incorrigível, meu amigo Virtual (nunca soube seu nome certo, só o nick) resolveu tirar a prova,se seria ou não capaz de se livrar dessa droga.

E começou a fazer uma série de testes...

Para começar, ele que sempre tomava seu café, ao mesmo tempo em que ligava o micro, imaginou que, talvez quebrando aquele vínculo, café-micro, a coisa melhorasse.

E passou só, a ligar o micro... Droga !

Virava as costas para o computador, mas não adiantava, aquele sinal sonoro dizendo: "chegou mensagem para você" o fazia correr para a frente da telinha.

Estava viciado mesmo.

 Até nos spams e anúncios em inglês, mesmo não falando aquela língua.

Quando não recebia nada, remexia nos arquivos para ler as mensagens anteriores. Enviadas e recebidas.

Os olhos cansados, tão cansados que já não miravam para a frente e sim um para o outro, devido a proximidade da tela, do óculos sem foco, fora de grau, como se se lamentassem da maratona...

-Tenho que arrumar um jeito de me livrar desse vício – pensou ele-.

- Já sei, vou para a rua. Há muito tempo que não vejo os amigos.

Arrumou-se todo e, antes de sair, quis dar uma conferida para ver se havia entrado algo de novo no correio.

Um calor de rachar, o sol batendo na janela e refletindo um mormaço infernal.

E Virtual, ali, todo arrumado, esperando. suando, que o Correio verificasse se havia uma mensagem nova. De repente tudo parou. Congelou, travou...

Desespero tão grande que Virtual pegou o gabinete e balançou ele para ver se a coisa pegava, assim como na piada que vira na Internet do português que foi pego balançando a geladeira e quando o amigo perguntou por quê, ele respondeu : Ela não quer pegar e eu estou a daire uns trancos pra bicha funcionaire.

E ali estava ele fazendo a mesma coisa. E não adiantou, é claro. Quando a conexão está lenta, quando os servidores estão em passo de tartaruga, não há "Defesa do Consumidor" que dê jeito.

Já todo melado de suor, pingando, aquelas gotas correndo, ele desliga o micro.

Vai no banheiro, lava as mãos, o rosto, olha-se no espelho e diz pra si mesmo:

 - Cara, tu é mesmo viciado nessa droga de Internet... Sai dessa cara... Não importa o sol que está fazendo lá fora, vai daqui direto para a porta da rua, sai, tranca a porta e cai no mundo real.

E assim fez, enxugou-se, colocou um desodorante, respirou fundo e correu para a porta... Sem querer olhar para trás...

Quando estava saindo, deu de cara com dois amigos que vinham chegando...

- Oi, Virtua... E aí, brother...? Tas a fim ?

- Sai, sai da frente que eu quero, preciso ir para a rua...

- Ooppsss...Que é isso, cara...?

- Calma, naum vai querê deixá de vê o que a gente trouxe, né...?

- Naum quero nem de sabê, caras...

- A gente descolou uns links legal, pra gente vê na Net...

- Não, Net, não !!!!

- Qué isso, mano, vamo lá...

Virtual, nervoso, não agüentou quando os amigos(?) o pegaram pelo braço e o levaram de volta para a porta. Começou a bater nos dois, e a apanhar também... A vizinhança chamou a polícia por causa do escândalo..

Foram presos, autuados e colocados em celas diferentes.

- Aqui, pelo menos, eu sei que fico livre...

Passaram-se algumas horas e um policial chega na porta da cela de Virtua.

- Ei, camarada. O delegado quer te ver...

- Que ele quer?

- Não sei... Vamos lá.

Quando Virtua chega na porta da sala do Delegado, este se levanta e fala:

- Oh, meu bom rapaz... Eu soube que você foi preso por que brigou com dois amigos por causa da Internet... E me disseram também que você é bom nisso.

- Mais ou menos, mas agora eu quero é esquecer...

- É isso mesmo, não guarde mágoa - diz o delegado, conciliador.

-  Agora, o seguinte: Chegou um micro novo aqui na DP...

Que tal se você me ensinasse como é que se navega...

Virtual deu um chilique (isso mesmo, chilique), começou a gritar e bater em todo mundo e hoje pode ser visitado no Manicômio Judiciário. Dentro de uma camisa de força.

Na sua cela, tem um computador desenhado na parede...

Para o qual ele fica rindo, zombando e dizendo :

- Me livrei de você, há, há, há, há... me livrei de você !!!

José Maciel
 01-03-2001