Voz do Coração

 

Foi num dia de inverno,
tarde fria, garoada,
andava eu pela estrada,
sem um destino sequer.
 
Tinha acabado um romance,
ia triste, como o tempo,
nublada a minha mente,
só o corpo estava presente...
 
Caminhava pelas poças,
formadas ao longo do chão...
eu ia em busca de algo,
talvez do meu coração...
 
Já não o sentia no peito,
nem mesmo sua pulsação,
que por um tempo vibrara,
com tanto amor e emoção...
 
Aos poucos eu ia lembrando,
a cabeça fervilhando,
dos nossos belos momentos,
das coisas que juntos fizemos,
das noites de amor que tivemos...
 
Dos nossos encontros furtivos,
escondidos da família,
que o namoro impedia,
por motivos tão banais...
 
Afinal, se o amor existia,
porque não deixar,
que as coisas transcorressem,
das formas mais naturais...?
 
É que a família que tinha,
defensora da moral,
só permitia romance
se o novo pretendente,
igualmente descendesse,
de uma clã tradicional...
 
Ora, a minha estirpe,
podia não ter tradição,
mas, a moral elevada,
família bem estruturada,
podia ser pobre, mediana,
mas aos ricos, classe A,
ficava devendo nada.
 
Se nosso amor tão latente,
que me deixava contente,
pelo prazer que sentia,
não estivesse interrompido,
o meu pobre coração,
não estaria magoado,
outra vez desiludido.
 
Mas, eis que a chuva passou,
e o sol voltou a brilhar,
prenunciando algo novo,
que estava para acontecer...
 
E eu não estava errado...
Falara mais alto a razão !
Pois de repente ao meu lado,
como um encanto apareceu,
a mulher que eu desejava,
e estava apaixonado !
 
Sua família consentira,
disse ela alegremente,
que nós ficássemos juntos.
 
Saímos os dois, bem alegres,
correndo alegremente,
pela estrada empoçada,
e eu olhava pra ela,
chafurdando o mar de lama,
como criança levada.
 
O que importava agora,
essa tal de tradição ?
Se no amor o que valeu,
falou e gritou mais alto,
foi a voz do coração !
 
 
 
José Maciel
22-09-2001